Donald Trump não calculou, mas a conversa telefônica na semana passada fortaleceu o projeto de poder do colega chinês, Xi Jinping. Depois de rugir e ameaçar mudar o rumo das relações bilaterais, o presidente norte-americano amansou o discurso e prometeu a Xi não desafiar um dos principais alicerces do relacionamento com Pequim, a política da “China única”.

O recuo lhe valeu o rótulo de “tigre de papel”, palavras de um conselheiro do governo chinês, em entrevista ao jornal “The New York Times”. “Trump perdeu sua primeira luta com Xi”, avaliou o analista, referindo-se à desistência da Casa Branca em se aproximar mais de Taiwan, onde se refugiaram, em 1949, nacionalistas derrotados, na guerra civil, pelos comunistas.

Xi faturou ainda em Davos. Em janeiro, tornou-se o primeiro presidente chinês a discursar no Fórum Econômico Mundial, posou como liderança do mundo capitalista, defendeu enfaticamente a globalização e disparou contra o fantasma de guerras comerciais.

Diante de um calendário político crucial, Xi começou o ano em alta velocidade. No segundo semestre, entre outubro e novembro, ocorrerá o congresso do Partido Comunista, responsável por renovar estruturas de comando e, de acordo com a tradição, reconduzir o secretário-geral a um segundo mandato de cinco anos.

Secretário-geral do partido desde 2012, Xi Jinping acumula ainda a presidência do país e a chefia da comissão central militar, supervisora das Forças Armadas. O esquema de poder data do final do século 20, quando Deng Xiaoping, patriarca das reformas pró-mercado e morto em 1997, reforçava a densidade política dos sucessores.

O mago da decolagem chinesa, no entanto, evitou criar “novos imperadores”. Segundo a cartilha de Deng, o dirigente máximo do país, apesar do acúmulo de cargos, teria de lidar com uma liderança compartilhada, em convívio com um fortalecido comitê permanente do Politburo, ápice do aparato partidário e com sete integrantes, entre eles o secretário-geral do partido.

Jiang Zemin e Hu Jintao, sucessores de Deng Xiaoping, comandaram o país seguindo à risca o plano de voo deixado pelo patriarca. Xi Jinping, terceiro timoneiro na era pós-Deng, sinaliza a intenção de imprimir sua digital no jogo de poder.

O dirigente chinês implementa, nos últimos anos, estratégia para expandir tentáculos e colocar em xeque a liderança coletiva. O próximo congresso do Partido Comunista seria o momento para consolidar articulações já em curso na hermética política palaciana da China.

No verão setentrional, a elite comunista se reúne no balneário de Beidahe e, em meio a caminhadas pelas praias, negocia nacos de poder no país mais populoso do planeta. Será um momento crucial, às vésperas do congresso partidário.

Xi Jinping reforça sua posição em Pequim também de olho no aprofundamento de reformas, para aumentar na economia o peso do setor de serviços e da inovação tecnológica, ao mesmo tempo em que aperta amarras da repressão política. Prossegue, portanto, a alquimia desafiadora, de modernizar o cenário econômico e garantir o poder nas mãos da elite comunista. (UOL e Folha)