Ambiente frio com muros altos, rodeado de grades com portões pesados. Sentenças separam aqueles que cometeram crimes do cotidiano de pessoas comuns. Talvez, quando em liberdade, não viam com os mesmos olhos, agora dentro de um sistema prisional, valorizar os estudos, almejar um diploma, ter uma profissão.
Mesmo trancados em presídios de Mato Grosso do Sul, custodiados buscam oportunidades para se ressocializar e reingressar na sociedade através de uma graduação, onde o Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM, é a via de acesso para o ensino superior.
Gabriel da Cruz Silva Araújo, 28 anos é um exemplo a ser destacado. Mineiro de Conselheiro Lafaiete/MG, foi preso em 2011 por tráfico de drogas. Segundo ele, estava de passagem por Anastácio quando acabou indo parar atrás das grades. Recluso no Estabelecimento Penal de Aquidauana, o jovem resolveu que ia mudar de vida. A primeira vez que fez o para Pessoas Privadas de Liberdade (Enem/PPL) foi em 2012, com intuito de fazer Matemática na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul , mas como ainda cumpria a pena, acabou não efetuando a matrícula.
Já em 2013, Gabriel foi mais longe, conseguiu pontuação para Engenharia Florestal na Universidade  Estadual de Mato Grosso do Sul. “Para o curso da UEMS faltava seis meses para acabar a pena. Consegui garantir a matrícula e minha irmã entrou em contato com a coordenadora do curso, professora Adriana e foi possível minha vaga para a graduação, consegui a liberdade e já tinha se iniciado o segundo semestre, mas entrei de cabeça. O apoio da minha família, mesmo em outro Estado, contou muito”, contou Gabriel por telefone ao JNE.
Mesmo em liberdade, o futuro engenheiro florestal enfrentou obstáculos. O primeiro ano cumpriu o período no sistema semi-aberto, durante o dia na faculdade e a noite dormindo no presídio. Ganhando a liberdade, o jovem contou com a ajuda da família para se manter em Aquidauana, já que o curso é integral e o Campus fica aproximadamente 12 quilometros da cidade.
Em vez do preconceito, Gabriel ganhou a solidariedade dos colegas de sala que se juntaram e o presentearam com um notebook para ajudar nos estudos.
Ainda falta dois anos para o mineiro colar grau, mas segue firme e o tempo na prisão ficará em um passado que apenas serviu de lição para a mudança de vida, mesmo longe da família, batalha todos os dias e conta com duas bolsas para ajudar a se manter. Gabriel, mesmo com poucas palavras na entrevista, fez questão de mencionar a ajuda e a torcida de seus familiares.
E no Estabelecimento Penal de Aquidauana, atualmente com 137 custodiados, 24 fizeram o ENEM em 2016 e apenas 2 conseguiram média para estudar na maior universidade pública do Estado, a UFMS.
Alex Ferreira, 38 anos, cumpre pena por tráfico de drogas, e está há dez meses preso. Segundo ele, uma situação antiga, mas como a condenação veio recente, está recluso no presídio. O custodiado que é funcionário público municipal, pai de três filhas e já avô de um menino, conseguiu pontuação para matemática.
“Eu gosto de exatas, me identifico e mesmo com essa condenação recente, não vou me deixar abater, se precisar tento novamente e quando eu sair daqui estou com minha vaga garantida. Conto com o apoio da minha família, principalmente do meu pai, que providencia toda a documentação necessária”, contou à reportagem.
Lúcio de Oliveira Falcão, 31 anos, foi o segundo custodiado a conseguir pontuação para o curso de Turismo. No caso dele a condenação é mais pesada, 14 anos e 6 meses pelos crimes de estupro, sequestro, cárcere privado, ameaça e lesão corporal.
A longa pena pode adiar os planos de ingressar em uma Universidade. “Foi terrível o que eu fiz com minha ex-namorada, só não a estuprei, mas assumo que acabei perdendo a cabeça, mas tudo isso serviu de lição e agora é pagar pelo que eu fiz e mesmo que demore para eu conseguir pelo menos ir para o semi-aberto, vou me preparando e participando do ENEM. Quando eu for merecedor de ter minha liberdade de volta, vou estudar e garantir o futuro das minhas filhas, nunca é tarde”, contou.
Em Mato Grosso do Sul, dos 913 custodiados da Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário (Agepen), que realizaram as provas do Exame Nacional do Ensino Médio para Pessoas Privadas de Liberdade (Enem/PPL), no ano passado, 529 conseguiram aprovação total ou parcial, conforme dados da Divisão de Educação da instituição, o que representa 58% de aproveitamento.
Levantamento da Diretoria de Assistência Penitenciária da Agepen revela que, durante o ano de 2016, 24 reeducandos cursaram ensino superior dentro das unidades prisionais do Estado; com acesso às plataformas on line de ensino; outros 2200 frequentaram os ensinos fundamental e médio pelo sistema de Educação de Jovens e Adultos (EJA), além 800 terem participado de capacitações profissionais.
Até mesmo o acesso à pós-graduação é possibilitado, com dois internos da Capital se especializando em Coaching e Liderança, atualmente.
O ensino e a qualificação profissional desses presos, associados à oportunização de trabalho digno, são essenciais para que estejam preparados para uma vida com novos valores e para que sejam reinseridos na sociedade, não reincidindo na prática criminal, o que reflete diretamente na redução dos índices de violência.
*Matéria publicada na edição impressa do JNE do dia 09 de junho de 2017, oficialmente inscrita no Prêmio Estácio de Jornalismo – Categoria Regional.
Fotos Alex e Lúcio: Marcos Maluf
Foto Gabriel: Arquivo Pessoal
Gabriel (de camisa branca e barba) com os colegas de faculdade, em uma aula prática de seu curso
Alex e Lúcio, no Estabelecimento Penal de Aquidauana