Ícone do site Jornal Notícias do Estado

Comunidades de MS se unem para recuperar nascentes e fortalecer rios que abastecem o Pantanal

Indígenas e quilombolas desenvolvem ações de preservação, recuperação de áreas degradadas e coleta de sementes nativas

Comunidades indígenas e quilombolas de Mato Grosso do Sul estão desenvolvendo iniciativas para recuperar nascentes, proteger rios e preservar áreas que contribuem diretamente para o abastecimento de água do Pantanal.

Em locais onde antes havia maior quantidade de água, moradores relatam mudanças na paisagem, com o desaparecimento de trechos de rios e de áreas conhecidas como vazantes, que ficam alagadas durante os períodos de cheia.

Na Terra Indígena Limão Verde, em Aquidauana, o engenheiro florestal e botânico Claudinei Terena acompanha essas transformações de perto. Nascido na região, ele lembra de um período em que a disponibilidade de água favorecia o solo e permitia que a comunidade produzisse alimentos para o próprio sustento.

Segundo o relato do botânico à Agência Brasil, o assoreamento contribuiu para o desaparecimento de partes de alguns rios e para a redução do volume de água em determinados pontos.

Recuperação de nascentes em Aquidauana

Como forma de enfrentar esse cenário, a comunidade trabalha na recuperação de 3,3 hectares de áreas de nascentes dentro do território indígena.

A iniciativa busca preservar o fluxo da água que segue em direção ao Pantanal e recuperar áreas do Cerrado. Entre as práticas utilizadas estão sistemas agroflorestais, que unem diferentes espécies de plantas em uma mesma área.

Para Claudinei, muitas dessas técnicas já eram utilizadas tradicionalmente pela comunidade antes mesmo de receberem nomes técnicos.

“A gente sempre trabalhou com agrofloresta sem a gente perceber. A gente sempre plantou em consórcio com alguma coisa”, relatou.

O conhecimento tradicional também envolve a identificação de espécies utilizadas na construção, na alimentação e na medicina. Desde criança, Claudinei aprendeu a reconhecer diferentes plantas e seus usos, incluindo cascas, frutos, folhas e raízes.

Sementes nativas ajudam na restauração

A cerca de 400 quilômetros de Aquidauana, na comunidade quilombola Santa Tereza, em Figueirão, outro trabalho contribui para a recuperação ambiental de Mato Grosso do Sul.

A comunidade participa da coleta de sementes de espécies nativas do Cerrado. Adauto Cândido Pereira integra a Rede Flores do Cerrado, grupo formado por 31 coletores, sendo 16 mulheres e 15 homens.

As sementes coletadas são destinadas a projetos de restauração ambiental em diferentes regiões do Estado. Dessa maneira, o trabalho realizado pela comunidade quilombola ajuda na recuperação de áreas degradadas, incluindo locais próximos a rios e nascentes.

A coleta segue regras para garantir a continuidade das espécies. Entre os cuidados está a orientação de deixar parte das sementes nas árvores, permitindo que elas cumpram seu ciclo natural.

“Não chega e pega tudo. Tem cuidado com a árvore, com o meio ambiente”, explicou Adauto à Agência Brasil.

Preservar as cabeceiras é proteger o Pantanal

A recuperação das nascentes é considerada fundamental para a conservação do Pantanal, já que a planície recebe água de diferentes regiões e biomas.

Além do Cerrado, o Pantanal sofre influência de áreas da Amazônia e da Mata Atlântica, no Brasil, e de regiões do Chaco e do Bosque Chiquitano, na Bolívia e no Paraguai.

De acordo com Cyntia Santos, analista de conservação do WWF-Brasil, as mudanças que acontecem fora da planície também podem provocar consequências no Pantanal, especialmente em um cenário marcado pelas mudanças climáticas.

Os trabalhos realizados em Limão Verde e Santa Tereza fazem parte de iniciativas de restauração de cabeceiras desenvolvidas pelo WWF-Brasil no Cerrado. A intenção é recuperar áreas onde alterações no uso da terra podem comprometer nascentes e dificultar o caminho da água até o Pantanal.

Além da recuperação da vegetação, especialistas também alertam para os impactos provocados por intervenções diretamente nos cursos d’água. Entre os exemplos estão as Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), que podem fragmentar rios e afetar a biodiversidade aquática.

As iniciativas mostram que a preservação dos rios que abastecem o Pantanal começa muito antes da chegada da água à planície. A recuperação das nascentes, a proteção da vegetação e o conhecimento das comunidades que vivem nesses territórios são partes importantes desse processo.

Sair da versão mobile