Após mais de 24 horas do apagão, a Energisa soltou nota sobre a interrupção no fornecimento de energia elétrica que deixou Aquidauana, Anastácio, Dois Irmãos do Buriti e Miranda às escuras por quase 12 horas na quarta-feira (5). A manifestação, no entanto, trouxe poucas explicações sobre as causas do problema e não abordou uma das principais preocupações de moradores e comerciantes: os prejuízos provocados pelo longo período sem energia e a possibilidade de ressarcimento.
A interrupção começou por volta das 6h30 e, em vários pontos, o fornecimento somente foi normalizado por volta das 18h25. Foram praticamente 12 horas de transtornos, reclamações e indignação, com reflexos no comércio, empresas, residências e serviços que dependem diretamente de energia elétrica.
O episódio ganha ainda mais peso por não ter sido um caso isolado. Este foi o segundo apagão registrado em 2026 na região com duração superior a dez horas, aumentando a preocupação de consumidores e empresários quanto à capacidade da infraestrutura elétrica de acompanhar o crescimento e a demanda dos municípios atendidos.
Estabelecimentos comerciais tiveram suas atividades comprometidas durante praticamente todo o expediente. Houve preocupação com alimentos e mercadorias que necessitam de refrigeração, interrupção de serviços e perdas decorrentes da impossibilidade de manter equipamentos em funcionamento. Até o momento, o impacto financeiro provocado pelo apagão não foi dimensionado.
Crescimento da demanda e infraestrutura entram no debate
Entre os questionamentos que surgem após mais uma interrupção prolongada está a capacidade da atual rede de distribuição e transmissão de acompanhar as mudanças no perfil de consumo e geração de energia da região.
Nos últimos anos, houve forte crescimento do número de consumidores que instalaram sistemas de geração de energia solar. Embora esses consumidores produzam parte da própria eletricidade, continuam conectados à rede, que precisa estar preparada para administrar tanto o consumo quanto a energia injetada pelos sistemas de geração distribuída.
Nesse contexto, consumidores e empresários questionam se os investimentos realizados na infraestrutura elétrica têm acompanhado, na mesma proporção, a expansão das cidades, o aumento do número de unidades consumidoras e o avanço da geração distribuída. A eventual relação entre esses fatores e o apagão, entretanto, não foi esclarecida pela Energisa na nota divulgada.
Também permanece sem resposta se houve insuficiência de investimentos ou necessidade de modernização anterior da rede e dos equipamentos responsáveis pelo atendimento da região. A própria informação da concessionária de que será realizada uma modernização completa da subestação envolvida reforça a necessidade de esclarecimentos sobre as atuais condições da estrutura.
Nota fala em “fatores técnicos e operacionais”
Na manifestação divulgada somente mais de 24 horas depois da ocorrência, a Energisa classificou a interrupção como um “evento excepcional, decorrente de uma combinação de fatores técnicos e operacionais”.
A concessionária, porém, não detalhou quais foram esses fatores, qual equipamento apresentou problema, se houve sobrecarga ou falha na estrutura, nem explicou por que foram necessárias quase 12 horas para que o fornecimento fosse totalmente restabelecido.
A empresa afirmou que, desde os primeiros minutos, suas equipes técnicas trabalharam de forma ininterrupta e que manteve contato com o poder público municipal e instituições, garantindo suporte para a continuidade dos serviços essenciais.
Apesar disso, a nota deixou sem respostas algumas das principais perguntas feitas pela população: o que efetivamente provocou o apagão? Por que quatro municípios ficaram tantas horas sem energia? A atual estrutura é suficiente para atender à demanda da região? E por que, pela segunda vez somente neste ano, consumidores enfrentaram uma interrupção superior a dez horas?
Energisa anuncia modernização de subestação
A concessionária informou ainda que realizará a modernização completa da subestação envolvida, com investimento em novos equipamentos, entre eles um novo transformador com tecnologia de ponta.
O anúncio, entretanto, também abre espaço para questionamentos. Se a estrutura precisa agora passar por uma modernização completa, consumidores querem saber quais eram as condições dos equipamentos existentes e se uma atualização anterior poderia ter reduzido o risco de uma ocorrência dessa dimensão.
A Energisa não informou, na nota, quando a modernização será iniciada, qual será o prazo para conclusão, o valor do investimento ou se as condições atuais da subestação tiveram relação direta com o apagão.
E quem teve prejuízo?
Outra questão que não apareceu na manifestação foi o eventual ressarcimento aos consumidores prejudicados.
A nota não trouxe orientação específica para comerciantes, empresários ou moradores que aleguem perdas de alimentos, mercadorias, equipamentos ou outros prejuízos decorrentes do longo período sem fornecimento.
Depois de quase 12 horas sem energia e mais de 24 horas de espera por uma manifestação, a população recebeu como explicação que houve uma combinação de “fatores técnicos e operacionais”, mas continuou sem saber de forma objetiva o que realmente provocou o apagão.
E, diante do segundo episódio superior a dez horas registrado em 2026, a cobrança vai além de saber o que aconteceu na quarta-feira. Aquidauana, Anastácio, Dois Irmãos do Buriti e Miranda precisam saber se a infraestrutura existente acompanha o crescimento da demanda, quais investimentos estão previstos para evitar novas interrupções e quais direitos terão os consumidores que comprovarem prejuízos.
São respostas que, até agora, a nota divulgada pela concessionária não apresentou.

