Intervenção do Ueno Bank pelo Banco Central desencadeou uma crise financeira e política no Paraguai. Santiago Peña apresentou renúncia em meio a acusações envolvendo sua antiga ligação empresarial com o grupo proprietário da instituição.
Uma crise envolvendo uma das principais instituições financeiras digitais do Paraguai provocou um verdadeiro terremoto político no país. O caso do Ueno Bank, que atende aproximadamente 2,9 milhões de clientes, ganhou repercussão internacional após o Banco Central paraguaio determinar a intervenção da instituição por graves problemas de solvência.
A situação passou a ser comparada ao escândalo do Banco Master, no Brasil, devido às dificuldades financeiras, aos questionamentos sobre a administração e às consequências para milhares de correntistas.
A decisão foi anunciada na terça-feira (3), depois que o Banco Central identificou que o índice de solvência do Ueno Bank havia caído para menos da metade do mínimo exigido pela legislação paraguaia.
Com a intervenção, os clientes tiveram dificuldades para acessar suas contas e movimentar o dinheiro. A situação provocou preocupação entre a população, filas em agências bancárias e uma corrida de correntistas em busca de informações sobre a recuperação dos valores depositados.
Recursos públicos também estão envolvidos
Um dos pontos que ampliaram a repercussão do caso foi a relação do banco com recursos públicos paraguaios.
A instituição administrava aproximadamente US$ 850 milhões em fundos públicos, incluindo valores relacionados a aposentadorias e outros compromissos governamentais.
O crescimento acelerado do banco também passou a ser questionado diante de suspeitas envolvendo empréstimos concedidos a empresas ligadas ao Grupo Vázquez, conglomerado responsável pela instituição financeira.
As operações levantaram preocupações sobre possíveis irregularidades e a concentração de recursos em empresas relacionadas aos proprietários do banco.
Ligação com presidente aumentou pressão política
A crise também atingiu diretamente o então presidente do Paraguai, Santiago Peña, que manteve participação empresarial no grupo proprietário do Ueno até março de 2025.
A relação provocou questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse, principalmente diante da presença de recursos públicos na instituição.
Em meio à pressão, Peña solicitou a saída do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, que havia anunciado sua renúncia após a intervenção.
O caso ganhou proporções ainda maiores quando parlamentares da oposição avançaram com um processo de impeachment contra o presidente e seu vice.
Na quinta-feira (5), Santiago Peña anunciou que havia apresentado sua renúncia à Presidência da República. Entretanto, a Câmara dos Deputados rejeitou o pedido e aprovou o avanço do processo de julgamento político, deixando a situação institucional ainda mais delicada.
Investigação criminal e dirigentes na mira
O Ministério Público paraguaio também abriu investigação para apurar possíveis irregularidades relacionadas ao funcionamento do Ueno Bank.
As apurações resultaram em medidas judiciais contra pessoas ligadas à instituição. Ao todo, 27 pessoas foram formalmente investigadas, e oito dirigentes tiveram ordens de prisão expedidas.
As autoridades também iniciaram procedimentos para avaliar a situação patrimonial do banco e estabelecer mecanismos de devolução dos recursos aos clientes afetados.
Crise preocupa mercado financeiro
Apesar da dimensão do problema envolvendo o Ueno Bank, autoridades paraguaias afirmaram que o episódio não representa, necessariamente, uma crise generalizada no sistema financeiro do país.
A Associação de Bancos do Paraguai informou que as demais instituições continuavam funcionando normalmente, enquanto se preparavam para receber clientes que buscavam transferir suas contas.
O episódio, entretanto, colocou em dúvida a segurança de investimentos e a fiscalização das instituições financeiras paraguaias, além de gerar preocupação entre investidores estrangeiros.
A crise segue com desdobramentos financeiros, judiciais e políticos, enquanto milhares de clientes aguardam a regularização do acesso aos seus recursos.

