Dados do censo mais recente do IBGE mostram que os evangélicos tiveram o maior crescimento entre as religiões no Brasil. Em Mato Grosso do Sul, esse avanço ganha destaque especial em Aquidauana, onde a população evangélica se tornou maioria — superando, pela primeira vez, a tradição católica, historicamente forte no município pantaneiro.
Com 45,74% dos moradores se declarando evangélicos, Aquidauana aparece como a cidade com a maior proporção desse grupo religioso em todo o Estado. A data também marca o Dia do Evangélico, celebrado em 30 de novembro desde 2010. Para compreender melhor esse cenário, o Jornal Midiamax ouviu representantes das duas frentes religiosas no município.
Catolicismo: tradição histórica e naturalidade no avanço evangélico
O pároco Paulo Souza, da Paróquia Imaculada Conceição — a tradicional Igreja Matriz — lembra que a força do catolicismo na região se deve ao pioneirismo dos Missionários Redentoristas, que atuavam desde Aquidauana até Mundo Novo.
“Muitas atividades e templos foram abertos com a atuação dos missionários. A extensão do trabalho dos padres americanos consolidou a presença da Igreja Católica”, explica.
Hoje, a paróquia abrange 33 comunidades, alcançando áreas urbanas, rurais e os distritos de Camisão e Piraputanga.
Para o padre, o crescimento evangélico é um fenômeno natural:
“Pessoas vão, pessoas voltam. É uma flexibilidade normal. Alguns vão para a igreja evangélica, outros retornam. É um movimento natural.”
Paulo também observa a característica de fragmentação entre algumas denominações protestantes como parte do motivo do aumento no número de templos:
“O crescimento de templos evangélicos tem a ver com dissensões internas. São abertos muitos templos. Às vezes, um espaço deixa de ser igreja e vira um bar ou pizzaria. No catolicismo, não há essa separação.”
Crescimento evangélico: mais que estatística, uma busca por respostas
Para o pastor Lucas Laborde Herculano Machado, presidente do Conselho de Pastores de Aquidauana, o aumento do número de evangélicos está ligado à transformação de vidas:
“Por trás de cada igreja, existem famílias. São casamentos restaurados, pessoas deixando vícios, gente buscando respostas e encontrando propósito.”
Segundo ele, duas forças impulsionam esse crescimento:
1. A missão bíblica
“Jesus deixou uma comissão: ‘vão e preguem o evangelho’. Isso gera um crescimento natural das igrejas.”
2. O fator humano
“Há conflitos, dúvidas e medos que só Deus traz alívio. As pessoas buscam direção.”
O Conselho de Pastores conta hoje com 15 igrejas participantes.
Adventistas acompanham crescimento no Estado
O pastor Rafael Felberg, secretário-executivo da Igreja Adventista do Sétimo Dia em MS, reforça que o movimento é estadual. A igreja saltou de cerca de 22 mil membros em 2021 para 25.334 atualmente.
“Há uma busca maior por espiritualidade, propósito e valores sólidos, o que contribui para o avanço da igreja.”
Além disso, a denominação mantém projetos sociais e educacionais, como o Clube de Desbravadores, o Clube de Aventureiros, ações solidárias da ASA, oito escolas e o Hospital Adventista do Pênfigo.
Desafios: promover unidade entre diversas denominações
Mesmo com o crescimento, o pastor Lucas destaca um ponto delicado:
“O desafio é promover unidade entre igrejas com diferentes visões teológicas. Unidade não é uniformidade, e isso exige trabalho.”
Diálogo e parceria entre igrejas
O padre Paulo elogia a convivência com líderes evangélicos:
“O relacionamento é ótimo. Tenho amizades com vários pastores.”
Para ele, a união em torno da fé cristã deve ser prioridade:
“Falamos em nome de um Deus que é amor, misericórdia e compaixão. Nenhuma igreja deve se achar superior. O respeito e o amor ao próximo precisam guiar nossa missão.”
Um cenário religioso em transformação
Aquidauana vive um momento singular, marcado pela força histórica do catolicismo e pela expansão expressiva das igrejas evangélicas. Dados, lideranças e ações sociais mostram que, mais do que disputa, o município vive uma fase de pluralidade religiosa, diálogo e busca por propósito.



