O avanço das mudanças climáticas representa uma ameaça concreta à produção agrícola no Brasil — e uma das primeiras vítimas pode ser a alface. De acordo com um estudo inédito da Embrapa Hortaliças, vinculado ao Ministério da Agricultura e Pecuária, o cultivo da hortaliça em campo aberto poderá se tornar inviável durante o verão em praticamente todo o território nacional até o final deste século.
Em um cenário otimista de aquecimento global, os pesquisadores projetam que 97% do território brasileiro apresentará risco climático alto ou muito alto para a produção de alface ao ar livre nos últimos 30 anos do século XXI.
Hortaliça sensível ao calor
A alface é uma das hortaliças mais consumidas pelos brasileiros, mas também uma das mais sensíveis às variações climáticas. Segundo o engenheiro-agrônomo Fábio Suinaga, pesquisador em melhoramento genético da Embrapa Hortaliças, o cultivo da planta depende diretamente de condições climáticas específicas.
“Do ponto de vista evolutivo, a alface precisa de temperaturas amenas e boa umidade para se desenvolver plenamente. As sementes, por exemplo, não germinam em temperaturas acima de 22°C, o que se torna um problema crescente com o aumento global da temperatura”, afirma o especialista.
Metodologia do estudo
O levantamento da Embrapa considerou diferentes cenários climáticos projetados para o Brasil nas próximas décadas, avaliando o impacto do aumento da temperatura e da mudança nos padrões de umidade sobre o cultivo da alface em campo aberto — método ainda dominante na maior parte das regiões produtoras.
O estudo reforça o que pesquisadores já vinham alertando: hortaliças como alface, espinafre e rúcula são especialmente vulneráveis ao calor excessivo, ao contrário de outras culturas mais adaptáveis ao clima tropical.
Soluções no horizonte
Apesar do alerta, a Embrapa destaca que há caminhos possíveis para mitigar os efeitos das mudanças climáticas sobre a produção de alface. Entre as alternativas estão:
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Desenvolvimento de variedades mais resistentes ao calor;
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Transição para cultivo protegido, como estufas e sistemas hidropônicos;
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Adoção de práticas agrícolas mais sustentáveis, com uso racional da água e sombreamento.
A pesquisa também deve servir de base para políticas públicas de adaptação climática na agricultura, setor que responde por parcela significativa do PIB brasileiro e da segurança alimentar do país.


